Sangrando Feminino

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Estilo Divino - Amandara Yin


Certo dia,  fui à casa de uma amiga ter com ela um dedo de prosa, aproveitar e filar a boia. Como era de costume sua mãe sempre separava o seu almoço em um prato fechado a outro prato, tipo um em cima, outro embaixo, e enrolava em um pano de prato. O que dificulta a visita inesperada dos mosquitinhos, sempre fofos, procurando algo para se encostar.    A minha amiga, assim como eu, é um tanto quanto desastrada, e esse procedimento diminuía as possibilidades de derrubar comida no fogão, no chão, e emporcalhar a cozinha. Nem sempre ela conseguia evitar. 
    Após dividirmos a comida entramos em uma conversa a respeito dos padrões. Ao ler um conto de um amigo que recém lançara um livro tivemos muitas coisas a questionar sobre autenticidade. Ser autentico era o tema. Iniciamos as duas um momento ejaculatório de idéias.
           O questionamento era a respeito de como as pessoas perderam a autenticidade. Vestiam iguais, cabelos iguais, pensamento igual, consumo igual. E quanto consumo!!! Evidente que o “ter”estava sobressaindo o "Ser". A desconexão com o natural e a reverência ao capital dominava e destruíam as pessoas, estávamos destruindo o planeta. 
          Quem tem autenticidade , maneira, vontade e escolha própria? Nada fácil acreditar que esse molde estilístico que todos consomem seja realmente algo peculiar. Em uma sociedade em que os lugares de destaque são estimulados apenas a quem aceita esse título de vencedor, aos que mais se enquadram nessa perversa condição, a busca pelo natural é uma joia a ser encontrada, é garantir o prazer de não se perder nesse molde coletivo
         Essa é a  sociedade dos vencedores. Magnífico! Todos em direção ao pai que também é um vencedor, lá no alto, em seu divino trono. Não é? Deus, pai da criação esse homem branco, de barba branca, nuvens brancas, desenho divino. Homem que consegue ser justo, seletivo e vingativo em um mesmo ser. Oh, santíssima trindade!
         Mas Deus tem mudado um pouquinho, apesar de ser autentico, ele participa, sem ser convidado de um dos maiores espetáculos de nossa sociedade, o comércio cristão. Hoje é profissão ser cristão, sendo mais específico, "ser evangélico". Essa minha amiga costuma falar que saímos do capitalismo selvagem para o capitalismo evangélico. E ai de quem não é!
        Esses dias, cheguei em uma clínica para fazer uma ecografia transvaginal e tinha uma tabela assim: 
        - Funcionários da saúde  tem desconto de 10%
        - Funcionários militares têm desconto de 20%
        - Evangélicos tem desconto de 40%
        - Que coisa! Pensei. Ser evangélico agora é profissão? Pior que é.
       Meu amigo, que trabalhava no IBGE, fez uma contagem de igrejas na região que morava com 40.000 habitantes e foi contada mais de 500 igrejas. É muita igreja! Temos o maior comércio cristão de todos os tempos. As pesquisas indicam um índice falso de desemprego, esquecem que tem muita gente trabalhando e com direito a horas extras nas igrejas. É só abrir a caixinha dos correios que virá milhares de ofertas promocionais, promovendo encontros realizadores, curas inimagináveis, sucesso, prosperidade, (essa última é o principal produto). E adivinha quem é o garoto propaganda de todas elas? Deus é claro! 
        Deus tem estilo, não sei se próprio, mas está sendo passado para trás!! São tantas as igrejas que promovem ofertas, é uma concorrência danada. As propagandas como:  “Doe o seu tudo em nome do Senhor”, Pare de Sofrer”, “Corrente dos empregados, dos desempregados, dos empresários”, "Desafio com Deus”, são comuns. Com toda certeza, existem tantas outras propagandas bem mais instigante, chamando a atenção de quem pouco espera da vida.
      Veja bem, será que Deus conhece direitos trabalhistas? O cara é explorado e ninguém faz nada. Essa relação promiscua de prostituição, trocas e desafio com Deus dá até assédio moral. O marketing é o paraíso, fazendo com isso, do mundo, um inferno. É a relação citada por Marx em O Capital – relação de troca – moeda de troca, nesse caso Deus é a  troca, oferecido em nome da moeda. 
      Mas tiraram a autenticidade de Deus. Assim... - Não me condene Senhor! Explico que o homem, tirou a autentica personalidade amorosa e justa de Deus, ou um deus qualquer, para uma propaganda comercial do céu. Vende-se terrenos no céu! Vende-se sabonete ungido!Vende-se sua alma!! Cruz e espada!!! Uma faceta 666. Quem é a besta então?
      É amiga, enquanto isso, nadamos contra essa maré robótica, de pessoas com olhares opacos, dentro desses moldes aparentemente perfeito, onde a religião  faz parte do seu "estilo", é seu status social, de quem é tão feliz quanto uma propaganda de margarina, tudo isso sem ser incomodado, a não ser pela miséria do mundo, que contribuem diariamente. Que lástima!
      Mas estamos em busca da felicidade, e tudo se justifica por ela. Ah, ser feliz! Tem coisa mais autentica, com mais estilo, do que a felicidade? Não sei, nunca fui. 
      É, minha cara, sempre conseguimos sujar o fogão, o chão e emporcalhar a cozinha!
                  
   

Amandara Yin     

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