Sangrando Feminino

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sobre o Amor

Sobre o amor

É um tanto quanto constrangedor falar do amor, assim como falar de Deus, sinto que estou compactuando com toda essa chapação histórica que em outrora seguíamos, e continuamos seguindo, esses enquadramentos constantes de conceitos. E esses conceitos em especial me causam aflição, já que vivemos a forte convicção da moral cristã. Não falo Cristo, oras... falo a moral humana de nome cristianismo, a que vivo em meu país. Essa sim merece total repúdio. Então busco aqui definir a não definição do amor, e abrir esse leque das infinitas possibilidades de amar.
A temática do amor vem sendo o enunciado de várias questões no decorrer da história, em principal das religiões sectárias que perpetuaram um medo e desejo em cima do amor. E é essa maneira que usa de conceitos pré-fabricados de uma cultura que defini, dita as regras e condutas existentes na sociedade. Enquadramos-nos de acordo com necessidades específicas de uma organização pouco condizente com a verdadeira experiência de amar. O que é dito é pouco praticado. O sábio poeta e músico Renato Russo certa vez falou algo interessante sobre o amor: “O amor não é uma coisa importante apenas porque as religiões dizem que seja, ou então porque é da natureza humana, mas sim porque pode ser uma espécie de passaporte para outras reflexões e outras sensações. Algumas dessas instituições tentam cada vez mais romper a conexão com o divino. É muito cruel, perverso, já que podamos a manifestação integra do ser.  E o que fode nisso tudo é que crescemos dentro dessa bolha maldita, num inconsciente coletivo impregnante que nos impede de vivenciar essa grande experiência. Somos crucificados, impedidos e ludibriados de querer, mesmo sem saber, a plenitude de amar. Romper essa bolha é nosso dever, não podemos ficar só na borda.
Sabemos que o ser humano está predisposto geneticamente à amar, já que o mesmo é fundamentalmente social e necessita dessa doação recíproca para satisfazer suas expectativas diante da vida. Toda essa frustração que a contemporaneidade passa esse vazio, a visão inteiramente estereotipada, a futilidade, tem como origem esse consumo, esse desligamento com a essência de si, desligamento com a natureza, com o todo. E perdemos o caminho desse campo essencial de sentimentos que funciona como um portal para abertura da consciência, que também vai depender das suas construções históricas, culturais e familiares. O amor é o fio condutor de todas as ideologias, quanto mais mecanismos se adquirem para romper o hímen da ignorância, mas probabilidades têm de penetrar nesse campo. E para sentir essa plenitude, é aconselhável entrar nu, despido de preconceitos, de sociedade, liberto.
Não é simples, eu sei... Como sei. Essa é uma luta diária com seus monstros internos e externos.  O capitalismo é a besta! O monstro das sombras norteando seus robôs para abdicar de seu coração, juntamente com as ditas “religiões”. Deixemos de ser robôs e tomemos posse de nossos corações. Derrubemos os muros que nos impede de trilhar o caminho do amor, lembrando que acima de tudo, o amor tem que ser liberto. A posse é apenas mais um dos mecanismos de acúmulo que esse sistema nos propaga como correto. Ter um ser humano para dizer que é seu, não digo “dizer”, mas digo “acreditar” que é seu, não te fará uma pessoa melhor. Oras, que coisa mais ridícula, tomar posse do que não te pertence... o outro pertence a ele próprio.  E ele e você têm o direito de vivenciar isso... Quebremos as amarras!

E quando conseguir penetrar nesse templo harmônico que é o amor terá certeza que não pertence e não é pertencido, que não existe conceito, racionalidade, apenas existe. E mesmo com todos os apegos, o amor vai te conduzindo a flexibilidades inimagináveis. Podemos sofrer? Muito! Porque carregamos essa roupa pesada, de construções duras, de crostas parcialmente resistentes...  Mas dá para ir tentando solta-la aos poucos... de pouquinho, em pouquinho... Sem pressa. E aí, podemos fazer nossas próprias leituras sobre o amor, sobre Deus, só que agora totalmente desperto.

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