Sobre
o amor
É
um tanto quanto constrangedor falar do amor, assim como falar de Deus, sinto
que estou compactuando com toda essa chapação histórica que em outrora
seguíamos, e continuamos seguindo, esses enquadramentos constantes de
conceitos. E esses conceitos em especial me causam aflição, já que vivemos a
forte convicção da moral cristã. Não falo Cristo, oras... falo a moral humana
de nome cristianismo, a que vivo em meu país. Essa sim merece total repúdio. Então
busco aqui definir a não definição do amor, e abrir esse leque das infinitas
possibilidades de amar.
A
temática do amor vem sendo o enunciado de várias questões no decorrer da
história, em principal das religiões sectárias que perpetuaram um medo e desejo
em cima do amor. E é essa maneira que usa de conceitos pré-fabricados de uma
cultura que defini, dita as regras e condutas existentes na sociedade. Enquadramos-nos
de acordo com necessidades específicas de uma organização pouco condizente com
a verdadeira experiência de amar. O que é dito é pouco praticado. O sábio poeta
e músico Renato Russo certa vez falou algo interessante sobre o amor: “O amor não é uma coisa importante apenas
porque as religiões dizem que seja, ou então porque é da natureza humana, mas
sim porque pode ser uma espécie de passaporte para outras reflexões e outras
sensações.”
Algumas dessas instituições tentam cada vez mais romper a conexão com o divino.
É muito cruel, perverso, já que podamos a manifestação integra do ser. E o que fode nisso tudo é que crescemos dentro
dessa bolha maldita, num inconsciente coletivo impregnante que nos impede de
vivenciar essa grande experiência. Somos crucificados, impedidos e ludibriados de
querer, mesmo sem saber, a plenitude de amar. Romper essa bolha é nosso dever,
não podemos ficar só na borda.
Sabemos
que o ser humano está predisposto geneticamente à amar, já que o mesmo é
fundamentalmente social e necessita dessa doação recíproca para satisfazer suas
expectativas diante da vida. Toda essa frustração que a contemporaneidade passa
esse vazio, a visão inteiramente estereotipada, a futilidade, tem como origem
esse consumo, esse desligamento com a essência de si, desligamento com a
natureza, com o todo. E perdemos o caminho desse campo essencial de sentimentos
que funciona como um portal para abertura da consciência, que também vai
depender das suas construções históricas, culturais e familiares. O amor é o fio
condutor de todas as ideologias, quanto mais mecanismos se adquirem para romper
o hímen da ignorância, mas probabilidades têm de penetrar nesse campo. E para
sentir essa plenitude, é aconselhável entrar nu, despido de preconceitos, de
sociedade, liberto.
Não
é simples, eu sei... Como sei. Essa é uma luta diária com seus monstros
internos e externos. O capitalismo é a
besta! O monstro das sombras norteando seus robôs para abdicar de seu coração,
juntamente com as ditas “religiões”. Deixemos de ser robôs e tomemos posse de
nossos corações. Derrubemos os muros que nos impede de trilhar o caminho do
amor, lembrando que acima de tudo, o amor tem que ser liberto. A posse é apenas
mais um dos mecanismos de acúmulo que esse sistema nos propaga como correto.
Ter um ser humano para dizer que é seu, não digo “dizer”, mas digo “acreditar”
que é seu, não te fará uma pessoa melhor. Oras, que coisa mais ridícula, tomar
posse do que não te pertence... o outro pertence a ele próprio. E ele e você têm o direito de vivenciar
isso... Quebremos as amarras!
E
quando conseguir penetrar nesse templo harmônico que é o amor terá certeza que
não pertence e não é pertencido, que não existe conceito, racionalidade, apenas
existe. E mesmo com todos os apegos, o amor vai te conduzindo a flexibilidades
inimagináveis. Podemos sofrer? Muito! Porque carregamos essa roupa pesada, de
construções duras, de crostas parcialmente resistentes... Mas dá para ir tentando solta-la aos poucos...
de pouquinho, em
pouquinho... Sem pressa. E aí, podemos fazer nossas próprias
leituras sobre o amor, sobre Deus, só que agora totalmente desperto.
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